Cecília chegou em Torres e logo desceu na rodoviária. Encantou-se com o lugar, o clima e o sotaque gaúcho. Não sabia onde, por quanto tempo, nem o que faria ali. Mas era exatamente esse o objetivo.
Antes de deixar sua cidade natal, Cecília procurou seu então namorado e colocou um ponto final no relacionamento:
- Jorge, precisamos conversar.
- Diga, Cecília.
- Decidi que não te quero mais. Cansei. Esgotei todas as possibilidades de darmos certos. Esperava ter um futuro com você, ter filhos, mas tudo que você fez, foi trazer péssimos pensamentos e vontades de hábitos antigos que já não fazem mais parte de mim. Não quero isso mais na minha vida. Quero ser feliz, independente se sozinha ou com alguém. Fiz de tudo, Jorge. Juro por Jesus Cristinho que está lá no céu, fiz de tudo. Entrego esse namoro nas suas mãos com o coração partido. Suas vontades passaram por cima de nossos sentimentos, e eu sempre quis o mundo. Mas o que tive com você foi um mundo fechado. Quis muito um futuro ao seu lado. E olha que loucura, pensei em abrir mão de todos os meus sonhos, por você. Sobrepus os seus sonhos aos meus, e não tive retorno. Sinto muito. Não por mim, pois sei que fiz o que pude - mesmo sendo louca às vezes. Sinto muito por você, Jorge. Quem acordará amanhã se lamentando por este fim, pensando que poderia ter feito diferente, será você. Amanhã acordarei em uma cidade bem longe daqui, bem longe de você, bem longe de toda essa loucura que minha vida se tornou. Eu te amei, te amei muito. Seja melhor com a próxima pessoa que você amar, ou seja melhor com você mesmo. Você merece ser feliz. Você precisa tratar esse vício seu. Você merece ser feliz com quem quer que seja, Jorge.
E assim foi embora. Jorge a olhou atônito. Nunca havia visto Cecília tão decidida, sem olhar para trás. Sem deixá-lo dizer uma palavra. Mas o segredo de Cecília conseguir ir embora sem olhar para Jorge, residia justamente aí. Não deixar as palavras dele amolecerem seu coração novamente. Cecília realmente precisava ir embora.
E foi.
Primeira coisa que Cecília fez ao chegar em seu primeiro destino, foi procurar um hostel para se hospedar. Era maio, e logo foi informada que estava acontecendo um Campeonato de Balonismo em Torres. Cecília se encantou, sempre achou balões lindos e mágicos, que davam a possibilidade de enxergar mais longe. Logo chegou em uma reunião em volta de uma fogueira à noite. Já quase na beirada da praia. E lá sentou e começou a conversar com todas as pessoas à sua volta.
Todos estavam imensamente curiosos, o que aquela mineira fazia ali perdida e sozinha? Então começaram o interrogatório: "nome, idade, cidade de origem, cidade de destino, o que fazia da vida...". Só não sabiam que Cecília omitiria a maior parte da verdade. Cecília não queria mais ser a velha Cecília, a Cecília de seus pais, a Cecília de sua cidade no interior de Minas, a Cecília de Jorge, a Cecília de seus amigos, a Cecília de seu curso. Cecília queria ser somente Cecília.
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domingo, 24 de maio de 2015
sem lenço e nem documento - capítulo II
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012
sem lenço e nem documento - capítulo I
- Então saia logo dessa casa! - Ordenou sua mãe.
- Vou-me embora, não importa como.
E assim Cecília bateu a porta, colocou sua pequena mochila nas costas e lamentou o fato de deixar as coisas que gostava para trás. Ela sabia que eram poucas coisas e que ela podia voltar a qualquer hora, mas ela sempre dava muito valor nas pequenas coisas. Até nas coisas que não poderia e não deveria.
Cecília estava no auge de seus vinte e poucos anos, tinha um cabelo que passava da cintura e um corpo espetacular na visão de alguns, e às vezes considerada gordinha na visão de outros. Desde criança nunca teve o sonho de casar virgem e nunca teve certeza sobre os príncipes encantados, a única coisa que sabia era que conheceria o mundo.
Assim que virou a esquina da Avenida Manoel Felício com a rua de sua casa, Cecília avistou a praça que costumava brincar quando criança, ponderou ficar, mas lembrou-se de um conselho muito antigo que sempre lhe deram sobre não se apegar ao passado e sempre seguir em frente. Foi o que fez, andou cerca de uns quinhentos metros e chegou a um guichê.
- Com cento e vinte mangos eu chego até onde?
- Depende para qual região a senhora deseja ir.
- Por enquanto quero ir pro Sul.
- A senhora chega até o litoral do Rio Grande do Sul.
- Me vê uma passagem.
- Ida e volta?
- Não, só ida.
A viagem durou cerca de quinze horas, e dentre essas quinze horas de muitos pampas à vista, Cecília utilizou dez horas para pensar em cada detalhe de sua viagem e perceber uma coisa; estava sem rumo. Mas no fim ela gostava de estar sem rumo. Aquilo nunca havia lhe acontecido antes. Ela deu um sorriso e prometeu a si mesma que voltaria para casa, mas só depois de viver todas as histórias loucas que existiam somente em seu pensamento. Era hora de ser Cecília.
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